Tuesday 29 September 2020
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diariodigital - 2 month ago

A história de um hino que faz pele de galinha a muito jogador pela Europa do futebol, contada pelo seu pai

Um jogo de futebol é repleto de grandes momentos: uma enorme defesa, um golo do outro mundo, um passe delicioso , o barulho dos adeptos, o corte in extremis. Mas nos jogos da Liga dos Campeões há um grande momento que acontece ainda antes do apito inicial. Diz quem já o viveu que no momento em que o hino da Champions começa a tocar a pele se arrepia e a emoção é grande. E não é para menos, não só um jogo de Champions é sempre um grande jogo, como a própria música no seu tom clássico e coro, ajuda a isso.Mas afinal de contas de onde surgiu o hino da Liga dos Campeões, um dos mais incríveis e reconhecidos hinos do mundo? Para percebermos tudo, temos de regressar a 1992.Apesar de atualmente ser um dado adquirido, principalmente pelas gerações mais novas, a Liga dos Campeões nem sempre se chamou Liga dos Campeões. Entre 1955 e 1991 a prova chamava-se Taça dos Campeões Europeus, tendo sido conquistada por dois clubes portugueses nessa altura Benfica (2x) e FC Porto. No ano de 91, a UEFA remodelou a competição e deu-lhe o formato que hoje conhecemos, com o logótipo reconhecido por todo o mundo e o seu hino.A música para a competição acabou por ir parar às mãos de Tony Britten, um compositor britânico focado em música para anúncios que, quando aceitou o trabalho, estava longe de imaginar no que se iria tornar. De resto, não ninguém melhor para recordar todo este processo que o  próprio pai do hino mais conhecido do futebol. O SAPO Desporto falou com Tony Britten para perceber tudo o que aconteceu e que culminou na criação desta música. Na altura trabalhava com muitos jingles e anúncios e tinha uma agente que olhava por esse lado da minha carreira. Encontraram-na e basicamente [os responsáveis da UEFA] sabiam que queriam algo “clássico” mas não sabiam ao certo o quê. Foi pouco depois dos ‘Três Tenores’ no Mundial [de 1990, em Itália] e a música clássica estava em todo o futebol. Tudo o que sabiam era que não queriam um ‘solo’, queriam um coro. Ela passou-me isso e eu pensei que a única forma de descobrir o que queriam era mandar-lhes vários exemplos de música coral. Mandei-lhes e eles escolheram ‘Zadok The Priest’ de Handel. Disseram Nós gostámos disto . Assim já sabia o caminho por onde seguir , começa por nos contar o compositor britânico.Bitten afirma que foi um processo muito rápido, algo que hoje em dia leva meses, anos.. passam por comités e grupos de foco. Na altura não houve nada disso, eramos um grupo de criativos, (...). Foi muito direto ao assunto na verdade , recordou.A prova estava a ser remodelada numa altura em que o futebol europeu não passava pelo melhor dos seus momentos e a UEFA olhava para a Liga dos Campeões como forma de mudar essa imagem. Uma das coisas com as quais a UEFA estava muito preocupada era que naquela altura o futebol não tinha uma boa imagem, havia muita violência, muito ‘hooliganismo’ em toda a Europa, não só no Reino Unido. Eles estavam a tentar restaurar o futebol, o seu ‘status’ – ‘o jogo bonito’ - isso era muito importante para eles , recorda Tony.Depois de Zadok The Priest dar o caminho a seguir, o processo não demorou muito, o que pela experiência do britânico é positivo. (...) Não demorou muito, foram dias e isso é bom. Pela minha experiência, quando as coisas fluem naturalmente, normalmente são boas. Se tiveres de trabalhar muito, provavelmente tens um problema , disse.Depois da música, seguiu-se a letra... algo que a UEFA não pareceu lembrar-se na altura. Eles disseram Queremos um hino e eu Boa, onde é que estão as palavras? e eles não tinham. Então disse-lhes que podia tratar disso e perguntei-lhes o que queriam que escrevesse e eles queriam “o melhor, o maior”... Então arranjei traduções literais de todos os superlativos que consegui arranjar para as outras duas línguas oficiais da UEFA - francês e alemão - e juntei tudo. É estranho que tenha funcionado, mas ainda bem que funcionou porque aqui estamos todos estes anos depois e continua a ser usado .Já agora a letra, se não a sabe toda, é esta: Ce sont les meilleures équipes [Estas são as melhores equipas]
Sie sind die allerbesten Mannschaften [Eles são as melhores equipas]
The main event [O evento principal]Die Meister [Os mestres]
Die Besten [Os melhores]
Les grandes équipes [As grandes equipas]
The champions [Os campeões]Une grande réunion [Um grande encontro]
Eine große sportliche Veranstaltung [Um grande encontro desportivo]
The main event [O evento principal]Ils sont les meilleurs [Eles são os melhores]
Sie sind die Besten [Eles são os melhores]
These are the champions [Estes são os campeões]Die Meister [Os mestres]
Die Besten [Os melhores]
Les grandes équipes [As grandes equipas]
The champions [Os campeões] Sou sincero, acho que ninguém (...) esperava que se tornasse no ‘monstro’ que se tornou O hino estava pronto e Tony seguia com a sua vida, como disse numa entrevista longe de imaginar no que a música que tinha composto se ia tornar. Sou sincero, acho que ninguém na equipa na TEAM [agência de marketing responsável pela imagem da Liga dos Campeões] ou na UEFA esperava que se tornasse no ‘monstro’ que se tornou. É enorme. Eu estava muito ocupado na altura, fazia muitos filmes, muitas partituras, produzia… era um rapaz ocupado. Por isso não dei conta durante anos. Eu via na televisão e pensava ‘boa, continuam a usar a minha música . Não dei conta durante anos , revela, antes de recordar o momento em que se apercebeu da enormidade que o seu hino tinha assumido. Fui conduzir a orquestra ao vivo em San Siro, na final entre Bayern de Munique e Valência [2001]. Basicamente tornamos Milão na L Opera Del Calcio - a opera do futebol - e foi uma loucura. Dirigi o coro da La Scala de Milão [ndr uma das mais famosas casas de ópera do mundo] no relvado... Nesse momento pensei que sim, realmente isto era importante , recordou.Uma importância assumida por todos os que jogam, apitam ou vêem, em casa ou no estádio, um jogo da principal prova europeia de clubes. E nem Ronaldo escapa.Um episódio que o compositor recordou na nossa conversa. Isso foi tão engraçado! Fui buscar o jornal de manhã e o jovem da agência virou-se para mim e disse ‘Sr. Britten, você sabe que ficou viral?!’ e eu a pensar ‘o que é isso?’. “Não sabe, o Ronaldo?”, bem eu sabia quem era o Ronaldo… quando vi aquilo tinha milhões de visualizações. É uma loucura, mas é bom , disse sorridente.Este fã do Crystal Palace, ainda aguarda por ter a oportunidade de ouvir o hino em Selhurst Park, apesar de admitir que não é um fã que acompanhe todos os jogos. Cresci em Croydon, de onde é o Crystal Palace, todos eramos fãs e costumava ir aos jogos, mas já não vou há alguns anos, já levei o meu filho mais velho lá. Apoio-os de longe. (...) Mas claro, seria incrível! Até só chegando ás primeiras fases e ouvir o hino. Mas não digo que não seja possível, aconteceu com o Leicester… , um exemplo que usa para realçar um dos aspetos que considera mais importantes na prova. Penso que é uma das coisas mais importantes nesta competição. Claro que vamos ter sempre um Bayern, uma ‘Juve’, um Manchester City… Mas é aberto, se jogares um futebol bom o suficiente chegas à Liga dos Campeões. E se jogares mesmo bem, vais avançando, o dinheiro vai aumentando e consegues comprar mais jogadores, vai funcionando. Vais subindo etapas , considera.Sobre a edição deste ano, uma edição atipica por tudo o que sabemos, Tony Britten considera que a ausência de público vai ter um papel importante na decisão da Liga dos Campeões, recordando um episódio na final de 2001 em que conduziu a orquestra. Penso que um dos problemas é que quanto mais avanças, mais o público se torna importante. Quando fizemos o hino ao vivo em San Siro, na altura não tínhamos o som nos auscultadores, tinha um par de colunas a enviarem-me a música e nos ensaios pedi para o técnico de som baixar o volume, porque ia dar cabo de mim… Mas quando chegamos à final, eu não conseguia ouvir. Felizmente aumentaram o volume das colunas e o coro foi fantástico, todos me seguiram e ninguém notou. Mas nunca tinha ouvido um barulho como aquele. Aquela emoção… , relembra. É importante que o futebol regresse, para os fãs para todos. (...) É bom para relembrar que a vida vai continuar e o futebol é importante para muita gente, faz muita gente felizApesar isso, o britânico deixou-nos a sua aposta para o campeão europeu desta época, realçando ainda a importância do regresso do futebol (...) Será a equipa que estiver mais confortável, que joga o seu jogo sem se preocupar com o resto. Tenho um felling que o Barcelona é capaz de conseguir. Mas é importante que o futebol regresse, para os fãs, para todos. Para dizer olhem, as coisas estão complicadas, mas vão melhorar e isto é bom para relembrar que a vida vai continuar e o futebol é importante para muita gente, faz muita gente feliz , rematou.28 anos depois da primeira vez que saiu a público o hino da Liga dos Campeões continua como novo, sendo atualmente um dos mais conhecidos hinos do mundo, fazendo vibrar milhões de pessoas à volta do globo e com uma pandemia o mundo bem precisa de momentos destes.Este ano, por causa da COVID-19, a competição sofreu alterações, com jogos à porta fechada, jogos a uma só mão e numa só cidade. Mas há algo que não muda e que se vai ouvir no Estádio José Alvalade e no Estádio da Luz: ainda que sem público nas bancadas o hino da Liga dos Campeões sai de Lisboa para o mundo.


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